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Marcado pela própria natureza

por Marceu Vieira (21/10/2012)

A editora Verso Brasil lança, no fim do mês (dia 31, na Travessa do Shopping Leblon), a coleção “Cadernos de Samba”, série de “biografias” não autorizadas das escolas do Rio. Os primeiros três livros são “Maravilhosa e soberana”, sobre a Beija-Flor, do nosso Aydano André Motta; “Tantas páginas belas”, sobre a Portela, do historiador Luiz Antonio Simas; e “Marcadas para viver”, sobre agremiações que já desapareceram ou padecem no limbo das últimas divisões do carnaval, do jornalista, compositor e pesquisador da folia carioca João Pimentel.

O livro de João, 43 anos, autor do festejado “Blocos — Uma história informal do carnaval de rua” (Relume Dumará, 2003), é um mergulho no lado B dos desfiles do Rio desde tempos imemoriais. Um capítulo chama a atenção, especialmente, por revelar a história de um samba-enredo ainda hoje tão vivo, composto por um só autor, de cuja trajetória tão remota muito pouco se sabia — Edeor de Paula (foto), 79 anos, que deu à luz o antológico e magistral “Os sertões” (“Marcado pela própria natureza/O Nordeste do meu Brasil…”), sambaço da Em Cima da Hora, em 1976.

João conta que, apesar de tão belo, “Os sertões”, sobre a Guerra de Canudos (1896-1897), não ganharia a disputa não fosse a interferência da direção da escola. Chiquinho dos Santos, presidente da querida agremiação de Cavalcante, bairro da Zona Norte carioca, terra dos Cabral (o governador do Rio, sobrinho de Chiquinho, cresceu ali), precisou formar um júri “isento” para decretar o hino ganhador. Na final, além de Edeor, estavam Baianinho, lendário compositor local, e Naldinho, outro fera, ambos crias da área. Edeor era forasteiro, mecânico da Gávea, morador da vila operária do Horto. Os nativos não admitriam sua vitória, e seu belo samba estava marcado para perder.

O júri nomeado pelo “tio Chiquinho” tinha à frente Sérgio Cabral, pai, seu cunhado, e baluartes no assunto como o agitador cultural Albino Pinheiro, o escritor Luiz Carlos Maciel, o mestre da charge Jaguar e a pesquisadora Rachel Valença. E o resultado, ufa!, foi unânime a favor de Edeor. Baianinho conta no livro que, na final, ao perceber um princípio de levante na quadra com a iminente vitória do forasteiro Edeor, tomou o microfone e retirou seu samba, abrindo caminho para a justa vitória do autor do verso “ó solitário sertão, de sofrimento e solidão”.

Só que, como numa segunda Canudos, no dia do desfile — o domingo 29 de fevereiro daquele ano bissexto —, um temporal tão antológico quanto o samba de Edeor desabou sobre o Rio, e a Em Cima da Hora entrou devastada na avenida, ficou em penúltimo, caiu para o 2º grupo e jamais se reergueu (37 anos depois, em 2013, a pequena valente de Cavalcante tentará a sorte no Grupo C).

Aliás, naquele mesmo carnaval, um paradigma foi quebrado — a Beija-Flor biografada pelo nosso Aydano venceu pela primeira vez e invadiu para sempre o Olimpo até ali só frequentado pelas imensas Portela, Mangueira, Império e Salgueiro. Mas aí é outra história.

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