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Cadernos de Samba na Folha de S.Paulo

Folha de S.Paulo | 11/11/2012 – 08h00

Coreia, pré-sal, Rock’n'Rio e Cuiabá são alguns dos enredos do Carnaval carioca de 2013

No universo tão visual das escolas de samba, há vista grossa –aquela que não permite enxergar, nas esquinas do Rio, o movimento dos pontos de jogo do bicho, atividade ilegal –paradoxalmente, quase uma instituição– com incestuosas relações com os desfiles do Sambódromo.

Nem sempre se admite oficialmente, até porque o regulamento da Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa) proíbe a exposição da propaganda, mas todo mundo sabe que as agremiações são patrocinadas por empresas, governos e até personalidades –em 2012, o publicitário Roberto Justus foi enredo em São Paulo.

Para o Carnaval de 2013, que começa em menos de 100 dias, o merchandising chegou às escâncaras. Um perigoso ponto sem volta, mesmo levando-se em consideração o conceito segundo o qual a essência da festa carnavalesca é a mudança. Aonde vamos parar quando uma escola com o histórico do Salgueiro –a primeira a levar para a avenida, na década de 60, temas relacionados aos negros– topa um enredo sobre a revista “Caras”?

Como aceitar com naturalidade que a Inocentes de Belford Roxo fale sobre “As Sete Confluências do Rio Han: 50 Anos da Emigração Coreana no Brasil”? Ou que a Mocidade Independente de Padre Miguel cometa um crime de lesa-samba ao exaltar o Rock’n'Rio? A Grande Rio pegou pesado e fundo: vai sair de pré-sal. Ressalte-se que ao menos uma das escolas apresenta um enredo simples, tradicional e, por incrível que pareça, inédito no Grupo Especial: a Ilha do Governador homenageia o poeta Vinicius de Moraes (1913-1980).

TRADIÇÃO

Três livros recém-lançados, reunidos na coleção Cadernos de Samba, da editora Verso Brasil, ajudam a entender o momento delicado pelo qual passa o desfile carioca. Com seu inegável apelo popular e turístico, a festa continua a fornecer régua e compasso para similares Brasil afora, notadamente São Paulo.

Com “Maravilhosa e Soberana” [132 págs., R$ 30], o jornalista Aydano André Motta defende a tese de que a Beija-Flor de Nilópolis é o perfeito resultado da conjugação de tradição e modernidade. Depois de quebrar em 1976 a ciranda das quatro grandes –Portela, Mangueira, Império Serrano e Salgueiro–, a Beija-Flor conquistou mais 11 títulos, praticamente um cada três anos, levando adiante a concepção Joãosinho Trinta (1933-2011) de opulência gigante nas alegorias.

A escola tem o mesmo intérprete, Neguinho da Beija-Flor, há 37 anos; o mesmo casal de mestre-sala e porta-bandeira, Claudinho e Selminha, há 17; e uma torcida e componentes tocados por uma intensidade quase messiânica ao participar de ensaios e desfiles.
No entanto, para esta temporada, a Beija-Flor apresenta um enredo dos mais esdrúxulos: o cavalo manga-larga marchador.

“O patrocínio foi o caminho que as escolas encontraram para viabilizar sua sobrevivência nos parâmetros milionários que a festa atingiu. Uma mudança na regra, liberando algum tipo de merchandising (como um ‘pede-passagem’, inspirado no que fazem os filmes nacionais, com os patrocinadores anunciados no início da projeção), permitiria enredos hoje impossíveis, de temas abstratos ou sobre personalidades do próprio mundo do samba”, propõe Motta.

Para as grandes agremiações, o custo de um desfile pode chegar aos R$ 10 milhões. Apenas manter o barracão na Cidade do Samba não sai por menos de R$ 50 mil por mês. Um carnavalesco de ponta cobra de R$ 750 mil a R$ 1 milhão por ano. Esse orçamento, em boa parte, vem de dinheiro “não contabilizado”.

LEI ROUANET

Meses antes do Carnaval, a Riotur, responsável pela organização dos desfiles no Sambódromo em parceria com a Liesa, libera uma verba de cerca de R$ 1 milhão para cada escola do Grupo Especial. Parte considerável do restante dos custos sai do patrocínio, jeitinho utilizado pela primeira vez em 1985 pelo Império Serrano, com “Samba, Suor e Cerveja: Combustível da Ilusão”. Hoje, arranja-se o dinheiro via Lei Rouanet, como o Salgueiro anunciou que fez para tratar o enredo “Fama”. Captou cerca de R$ 5 milhões.

“O patrocínio ideal é aquele que não aprisiona a escola em enredos desprovidos de qualidades para sustentar o cortejo e gerar bons sambas. Quando a escola se submete inteiramente ao patrocinador (o ideal seria ocorrer o inverso) abandonamos o universo do samba-enredo e caímos no domínio do jingle-enredo”, acusa o historiador Luiz Antonio Simas, autor de “Tantas Páginas Belas” [116 págs., R$ 30], sobre a Portela.

A escola do bairro de Osvaldo Cruz permanece como a maior campeã da história do Carnaval carioca. Não bastassem seus 21 títulos, é a única a alcançar um impressionante heptacampeonato, entre 1941 e 1947, feito que dificilmente será batido. Mas não conseguiu manter seu protagonismo diante das transformações que a festa sofreu, ficando longe das primeiras colocações em grande parte dos desfiles realizados a partir da década de 70.

“A Portela, provavelmente, não voltará a ser campeã deixando de ser Portela. Por outro lado, eis o drama, precisa mudar para voltar a triunfar. Até agora, não conseguiu resolver essa equação”, explica Simas.

Na aparência, o enredo da escola para o ano que vem, sobre o bairro de Madureira, faz jus à sua nobre linhagem. Antes, estava decidido que se ia reeditar o tema de 1971, “Lapa em Três Tempos”. Mas, segundo se conta à boca pequena no próprio bairro homenageado, o prefeito portelense Eduardo Paes determinou a mudança –e vultosa verba extra– com o seguinte argumento: a Lapa não dá voto; Madureira, sim.

No jargão carnavalesco, é um típico “enredo CEP”, modalidade em que uma cidade, um Estado ou mesmo um país pagam para ser retratados. Em 2013, a Coreia do Sul escolheu a Inocentes de Belford Roxo; a Alemanha, a atual campeã, Unidos da Tijuca. A tradicionalíssima Mangueira, quem diria, teve de contentar-se com Cuiabá, capital de Mato Grosso.

Jogo feito, quem mais sofre no processo –mais ainda que o carnavalesco que, mal ou bem, terá dinheiro à mão para suas invenções– é o compositor, obrigado a disfarçar o nome de uma marca de iogurte ou de salsicha no refrão.

A situação reforça a existência dos “escritórios”, prática na qual compositores de verdade e testas de ferro formam grupos que disputam o concurso de samba em diversas escolas.

Autor de “Marcadas para Viver” [128 págs., R$ 30] –que conta a história de cinco importantes pequenas escolas do Carnaval do Rio, Em Cima da Hora, Unidos do Jacarezinho, Unidos de Lucas, Vizinha Faladeira e Tupi de Braz de Pina–, o jornalista e compositor João Pimentel, o Janjão, sofreu na pele a pressão dos escritórios: “Já disputei samba na Portela e no Paraíso do Tuiuti. Foram experiências pesadas. Há quem tenha vencido quatro, cinco vezes, mas nunca fez um verso, uma melodia”.

BLOCOS

Por essas e outras é que Fernando Pamplona –que bolou o revolucionário enredo “Quilombo dos Palmares”, que deu o título ao Salgueiro em 1960–, quando se aproxima a entrega das chaves da cidade ao Rei Momo, faz as malas e se manda para Itaipava, na serra fluminense. “Há seis anos não assisto ao desfile. Não ligo nem a televisão. O motivo é essa comercialização desbragada. E olha que eles estão se vendendo barato”, critica Pamplona.

Com a insatisfação, ganha força o fenômeno incontrolável dos blocos de rua. São mais de 500 a ocupar todos os pontos da cidade. É impossível saber um número exato pois, apesar da fiscalização da prefeitura, surge um em cada esquina às vésperas da folia.

Cerca 6 milhões de pessoas –muitos turistas– os seguem, deixando um rastro de confete, serpentina, latas de cerveja e xixi (os banheiros químicos não dão conta). “O bloco devolveu ao carioca a rua, a crítica, o prazer de se fantasiar”, resume Janjão, que também é autor do livro “Blocos: História Informal do Carnaval de Rua” (Relume-Dumará, 2002).

Na contramão do luxo do Sambódromo ou da bagunça dos blocos, foliões saudosos descobriram a Estrada Intendente Magalhães, em Campinho, zona norte do Rio. É lá que desfilam as escolas do fim da fila no Grupo de Acesso. Na calçada, famílias com cadeiras de praia de um lado, a arquibancada com três degraus do outro.

Cada agremiação traz apenas um carro alegórico e cerca de 600 componentes, alguns catados a laço no botequim mais próximo. É lindo, emocionante, engraçado. E barato à beça. Você não imagina: com o dinheiro de uma fantasia de destaque no Grupo Especial –R$ 100 mil, em média–, dá para bancar mais da metade desse Carnaval do andar de baixo.

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